domingo, 17 de abril de 2011

Inovação não nasce pronta: Newton Pad e o Mouse

Por Paulo Ferreira*



Inovação não nasce pronta. Nem se pode esperar reconhecer o valor da ideia de imediato. Procurando inovação? Busque ideias estranhas, aquelas que não parecem realmente se encaixar, que tragam em si um mínimo de estranhamento.





O papel do estranhamento é fundamental: O pensamento altamente conformado e adaptado não cria nada radicalmente novo. Existe um papel para o estranhamento – ele nasce de uma ideia que é forte e segura na cabeça do autor, mas que aos demais parece ligeiramente fora de ordem. E nisso reside uma parte da dificuldade das empresas em embarcar na inovação.



As companhias procuram um vencedor óbvio – uma ideia que esteja pronta e redonda o suficiente para dar resultados imediatos. Ora, uma ideia assim quase nunca será inovadora de fato. 



Uma característica básica das ideias inovadoras é que elas se apresentam (pelo menos um pouco) à frente do seu tempo. Por isso ninguém pensou nelas ainda. E, também por isso, muitas vezes o ambiente não está totalmente pronto para recebê-las, sendo necessário, então, uma série de preparações e adaptações, muitas vezes requerendo que se amargue um erro para mais tarde chegar ao acerto.



Que as empresas não têm paciência de fazer, vítimas que são do imbecilizante olhar exclusivamente focado no resultado trimestral. Thequartercourse – A maldição do trimestre. E com isso jogam fora oportunidades de inovar.



O mouse, por exemplo, foi criado nos laboratórios experimentais da Xerox. Ficou lá, jogado num canto e relegado à pouca importância por muito tempo, até que Steve Jobs, numa visita ao laboratório, foi capaz de intuir um uso adequado para ele. O mouse, na visão da Xerox, era uma ideia insuficiente, que não resolvia e tinha sido abandonada. Uma empresa que mantinha todo um parque de laboratórios de inovação e pagava profissionais para isso não foi capaz de ver o potencial da invenção.



E quem se lembra do primeiro tablet colocado no mercado? Chamava-se Newton. E foi lançado pela… sim, pela Apple! E não funcionou, não vendeu nada e quase afundou a companhia. Mas foi o erro mais retumbante da Apple, que preparou terreno para seu grande acerto chamado… i-Pad. Anos depois. Vários anos depois. 



Como é que alguém faz isso, se tiver a totalidade da empresa focada no resultado do trimestre? A resposta é simples: não faz. Por isso tão poucas empresas fazem. Por isso apenas a Apple é a Apple. Porque tem um louco visionário que separa uma parte do seu pessoal e diz a eles: façam, criem e pesquisem. E garante que ninguém, nem mesmo o CEO, interfere no trabalho deles. 



Como? Pré-aprovando equipe e budget dedicado por uns cinco anos, sem permitir que qualquer pessoa, por CINCO ANOS, mexa na equipe ou no budget, não importa quais sejam os resultados.



Quantos mouses você acha que estão largados pelas empresas ao redor do mundo? Quantas empresas vão se permitir aprender com seus Newtons o suficiente para chegarem aos seus i-Pads?



* Paulo Ferreira é Diretor de Criação da Subway Link. Publicitário, escritor, roteirista, músico e compositor, fundador da consultoria Wasaby Innovation; é colaborador da HSM; Mundo do Marketing e Trendwatching; editor-contribuinte do All Music Guide.

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